Renovando o pacto




Na Bíblia o nome de Deus ou a sua própria pessoa aparecem associados a uma lista quase interminável de palavras que lhe atribuem alguma qualidade ou característica. Nas primeiras páginas da Escritura, por exemplo, Deus se revela como o criador de todas as coisas e o único ser não criado. Tomando ainda as coisas criadas como referência, vemos nas qualidades das mesmas a nítida associação do ser de Deus à bondade, a ordem e a perfeição. Essa imagem de Deus para muitos parece mudar bruscamente no relato da Queda, pois, para essas pessoas, ali, Adão não mais estava diante do Deus bom, mas perante o Deus que condena. Essa compreensão me parece, todavia, não perceber que mesmo diante do pecado de Adão – uma afronta a santidade de Deus – temos pintado um dos quadros mais belos da personalidade divina: a justiça e a graça em Deus de mãos dadas numa mesma tela bíblica.
A despeito de exemplos como esses retirados do livro Gênesis se multiplicar por toda a Escritura Sagrada, a história da redenção nos apresenta um imagem de Deus que parece ter uma posição de destaque: “O Deus da Bíblia é o Deus da aliança”. Palmer Robertson abordando este assunto nos traz um importante esclarecimento. Ele nos Diz que “Deus entrou, repetidamente, em relação de aliança com indivíduos. Referências explícitas encontram-se na aliança divina estabelecida com Noé (Gn 6.18), Abraão (Gn 15.8), Israel (Êx 24.8) e Davi (Sl 89.3)”[1].

A aliança, ainda segundo Robertson, foi também à base do relacionamento entre Deus e Adão no Jardim do Éden, pois “Um pacto de vida e morte está claramente presente entre Deus e o homem recentemente criado (Gn 2.15-17)”[2], bem como à base do relacionamento entre Cristo e a Igreja, posto que é sobre o pano de fundo da antiga aliança que a nova é celebrada no sangue de Jesus.
Segundo a análise desenvolvida pelo Dr. Robertson, somos levados a entender que “Da criação à consumação o pacto da aliança tem determinado a relação de Deus com o seu povo”[3] e que a natureza desse relacionamento envolve compromissos e consequências[4].
O relato bíblico, no entanto, nos revela que, não poucas às vezes, o povo de Deus desprezou a sua aliança e veio a sofrer por isso. “A devastação nacional de Israel pode ser entendida somente em termos da aliança mosaica”[5]. Isso significa dizer que “O exílio ocorreu porque Israel não guardou os mandamentos e estatutos de Deus de acordo com a lei de Moisés” (cf. 2Rs 17.33ss.)[6].

É importante, no entanto, observar que na quebra da aliança por parte do povo de Deus, como no exemplo já citado da Queda de Adão, temos também a manifestação da graça divina na busca que Deus, reiteradas vezes, empreendeu para restabelecer o relacionamento pactual com o povo que elegera. O ministério profético é talvez o maior exemplo bíblico dessa disposição divina de preservar a aliança com o seu povo registrada no Antigo Testamento.
No ministério de Jeremias temos um ótimo exemplo dessa disposição divina. Num tempo onde o povo se dividia “entre a adoração idólatra de deuses estrangeiros, profundamente enraizada desde o reinado de Manassés (696-642 a.C.), e a adoração ao Senhor, que Josias tentou restaurar com sua reforma”[7], Deus levou o profeta Jeremias para fazer conhecida as suas palavras ao seu povo:
Assim diz o SENHOR: Que injustiça acharam vossos pais em mim, para de mim se afastarem, indo após a nulidade dos ídolos e se tornando nulos eles mesmos, e sem perguntarem: Onde está o SENHOR, que nos fez subir da terra do Egito? Que nos guiou através do deserto, por uma terra de ermos e de covas, por uma terra de sequidão e sombra de morte, por uma terra em que ninguém transitava e na qual não morava homem algum? Eu vos introduzi numa terra fértil, para que comêsseis o seu fruto e o seu bem; mas, depois de terdes entrado nela, vós a contaminastes e da minha herança fizestes abominação. Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizaram por Baal e andaram atrás de coisas de nenhum proveito”[8].
Essas palavras nos mostram que o povo de Judá vivia em completa apostasia; os mestres da lei não possuíam intimidade com Deus, os pastores agiam de má fé em busca de benefício próprio e os profetas haviam abandonado o cominho do Senhor. Todavia, essa não é a única imagem que emerge do texto. Ali também é possível ver o Deus da graça disposto a restaurar a aliança com seu povo.
É interessante, entretanto, observar que esse mesmo Deus misericordioso e que mostra disposição para renovar a sua aliança é também o Deus que se autorrevela como aquele que não vê com bons olhos a quebra da aliança. O profeta Malaquias, por exemplo, fez o povo de Judá, no período pós-exílio, entender essa verdade: “Porque o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio [...], portanto, cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis”[9].

Aqui o profeta Malaquias, por inspiração divina, condena o divórcio praticado pelos filhos de Israel e conclui que a dissolução do casamento praticado pelos mesmos, em última análise, era uma manifestação da infidelidade daquele povo para com a lei de Deus, isto é, uma profanação da aliança que Deus havia estabelecido com aquele povo[10].
No livro de Oseias encontramos outra descrição de como Deus não vê com bons olhos a quebra de sua aliança. Oseias é levado por Deus a condenar as atitudes dos sacerdotes de Israel, visto que eles haviam abandonado o compromisso que tinham de instruir os seus irmãos na lei do Senhor. A condenação declarada por Oseias, visto que Deus odeia a quebra da aliança, é duríssima: “Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”[11].
Isso nos mostra que Deus tem revelado ao longo da história da redenção um conceito elevadíssimo de aliança. O próprio Cristianismo é uma realidade por causa da fidelidade de Deus a aliança que firmou ainda nos dias de Adão e veio confirmado e renovando ao longo da história.
A partir desse elevado conceito de aliança que temos em Deus, devemos nos questionar: Qual é o nosso conceito de aliança? Acredito que precisamos fazer uma reflexão dessa natureza, pois, como nos levaram a entendem os profetas, a nossa relação com as coisas desta vida, em última análise, retrata a aliança que temos com Deus.
Como os batistas crêem “que uma igreja visível de Cristo é uma congregação de crentes batizados, que se associam por um pacto na fé e comunhão do Evangelho”[12] esse debate se reveste de especial significado para os membros de uma igreja batista. Isso na prática implica dizer que ninguém é obrigado a ser um crente batista, contudo, se decidiu servir a Deus por meio da tradição batista deve honrar a aliança que fez com os seus irmãos diante do Deus da aliança.
Para os pastores batistas nacionais a necessidade de refletir sobre essa questão é ainda maior, pois, além de ter que observarem o pacto batista nacional na qualidade de membros da igreja, devem também estar engajados no trabalho de conduzir aqueles que se encontram aos seus cuidados a se manterem fiéis ao compromisso que assumiram com a igreja diante de Deus.
Diante dessa responsabilidade que nos impõe o pacto batista nacional, precisamos nos questionar: A Bíblia, de fato, tem sido a nossa “única regra de fé e prática”? Temos “aceitado a Declaração de Fé das Igrejas Batistas Nacionais” como um resumo daquilo que acreditamos?[13] Demonstramos, em nosso viver cotidiano, “o fruto que nos identifica como verdadeiros discípulos de Cristo”?[14] Estamos engajados na promoção de “nosso aperfeiçoamento individual e coletivo através da prática devocional da oração fervorosa, da leitura e estudo assíduo da Bíblia e da participação nas reuniões de culto público e familiar”?[15] Como tem andado o nosso zelo na propagação da fé, cooperação com as demais igrejas batistas e cuidado com os outros irmãos?[16]
A atmosfera batista nacional nos revela que em grande medida temos desprezado esse pacto. Quando, por exemplo, nos propomos a discutir a ordenação feminina tendo como base as demandas da pós-modernidade ou a agenda do feminismo, em detrimento daquilo que nos ensina claramente a Escritura Sagrada – aquilo que confessamos ser a nossa regra de fé e prática por excelência – não estamos desprezando o pacto que firmamos com as nossas igrejas? Quando seguimos apoiados no pragmatismo de nossos dias, em detrimento da fé que nos legaram os nossos pais, não estamos igualmente desprezando o pacto que firmamos com as nossas igrejas?
Diante de nosso desprezo para com fé de nossos pais, deveríamos nos lembrar que Deus tem um conceito elevado de aliança; deveríamos também nos lembrar que, justamente por ter um conceito elevado de aliança, Deus não vê com bons olhos a quebra da aliança. A consciência dessas verdades deve nos levar ao caminho do arrependimento e da renovação da aliança que firmamos com as nossas igrejas.
Reafirmar o compromisso com o pacto, sem dúvida alguma, trará para as igrejas batistas nacionais inúmeros benefícios, tais como o resgate de sua identidade e a promoção da unidade. Sem falar que as igrejas batistas nacionais unidas entorno do pacto – que nada mais é que o compromisso de servir a Deus com todas as suas forças – serão luz para um mundo em trevas e um hino de louvor ao Deus de pactos.
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[1] ROBERTSON, Palmer. O Cristo dos Pactos. 1ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 09, 2002
[2] Ibidem, p. 28
[3] Ibidem, p. 29
[4] Ibidem, p. 20
[5] Ibidem, p. 37
[6] Idem
[7] Notas de Estudo da Bíblia de Genebra, p. 859.
[8] Jeremias 1.5-8
[9] Malaquias 2.16.
[10] Malaquias 2.10.
[11] Oseias 4.6.
[12] Manual Básico do Batistas Nacionais e Manual da Ormiban. Convenção Batista Nacional, Brasília - DF, 2002, p. 25
[13] Ibidem, p. 33
[14] Ibidem, p. 34
[15] Idem, p. 34
[16] Idem, p. 34

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2 Comentários

  1. Amém! muito bom entendermos que para sermos equilibrados precisamos passar pelo crivo das Sagradas Escrituras, e para ser um bom ministro do evangelho é preciso entender e por em prática. Esse tem sido um grande desafio em nossos dias. Deus continue te abençoando Pr. Hebert.

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  2. João meu grande amigo. A nossa caminhada é longa, mas o caminho é legal. Grande abraço e vamos nessa!

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